Congresso Internacional destaca desafios globais e papel da academia na construção de respostas inovadoras

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A Universidade de Santiago, através do Departamento de Ciências Económicas e Empresariais (DCEE), deu início à terceira edição do Congresso Internacional em Ciências Empresariais, que decorre nos dias 9 e 10 de abril, reunindo académicos, investigadores, estudantes e profissionais num espaço de reflexão, partilha científica e debate sobre os desafios contemporâneos do setor empresarial.

A sessão de abertura, realizada no Campus da Praia, ficou marcada por intervenções que evidenciaram a crescente complexidade do contexto económico global. Na ocasião, a diretora do Campus da Praia, Marcília Fernandes, deu as boas-vindas aos participantes, sublinhando a importância do encontro num cenário de constantes transformações sociais e económicas. Na sua intervenção, destacou o papel da academia na produção de conhecimento com impacto real, apelando a uma participação ativa, sobretudo por parte dos estudantes, e valorizando o empenho da comissão organizadora.

Um dos momentos centrais do primeiro dia foi a intervenção da professora Ana Suzete Semedo, que centrou o seu discurso nos desafios enfrentados pelas organizações num mundo cada vez mais imprevisível. Em representação da Comissão Organizadora, destacou a diversidade de origens dos participantes, defendendo que “o conhecimento não tem fronteiras” e que os desafios globais exigem o diálogo entre diferentes perspetivas.

A docente sublinhou ainda que as ciências empresariais atravessam um período de profundas transformações, impulsionadas por mudanças económicas, sociais, ambientais e tecnológicas. Alertou para o impacto crescente dos conflitos armados, referindo que a guerra deixou de ser uma realidade distante e passou a influenciar diretamente empresas, mercados e governos, tornando a incerteza uma característica estrutural das economias contemporâneas. Perante este cenário, defendeu a necessidade de reinventar as ciências empresariais, com enfoque particular nos contextos insulares e africanos.

A conferência inaugural foi proferida por Paulino Dias, que também conduziu o painel “Ciências Empresariais num mundo de Imprevisibilidades”. Na sua análise, o atual cenário global é marcado por múltiplas fontes de instabilidade, destacando, em primeiro lugar, as tensões geopolíticas internacionais, que influenciam diretamente as dinâmicas económicas e os mercados.

Segundo explicou, os Estados afirmam cada vez mais os seus interesses estratégicos e prioridades, numa interação complexa que se reflete nas decisões económicas globais e nos fluxos comerciais. Como segundo fator de imprevisibilidade, apontou as mudanças climáticas, cujos efeitos, como a elevação da temperatura dos oceanos, o aumento do nível do mar e a intensificação de eventos extremos, têm impacto direto na economia e na atividade empresarial.

A terceira força transformadora identificada foi a aceleração das mudanças tecnológicas, com destaque para a inteligência artificial e outras tecnologias emergentes, que estão a redefinir processos produtivos, modelos de negócio e até as práticas de ensino nas universidades.

Perante este contexto, Paulino Dias considerou que Cabo Verde, enquanto pequena economia aberta e altamente dependente do exterior, deve clarificar os seus “valores âncora” no plano internacional, apontando a Carta das Nações Unidas como referência orientadora. “Um país que não tem capacidade para impor as suas vontades deve evitar comportar-se como um navio num mar agitado sem âncora”, advertiu.

No plano interno, defendeu o reforço da resiliência económica, alertando para a vulnerabilidade do país a choques externos, sobretudo na segurança alimentar, lembrando que Cabo Verde importa cerca de 80% do que consome. Referiu ainda que a instabilidade no Médio Oriente pode continuar a influenciar os preços do petróleo, com efeitos prolongados nas cadeias de valor associadas à energia.

O economista destacou igualmente a importância de uma maior articulação entre universidades e empresas, defendendo currículos ajustados a um mundo volátil, capazes de formar quadros preparados para gerir riscos e liderar processos de transformação económica.

O programa do congresso inclui ainda painéis temáticos dedicados à gestão e turismo em contextos de transformação, bem como à liderança, competitividade e sustentabilidade. Durante as sessões, investigadores de Cabo Verde, Portugal e Brasil apresentaram comunicações científicas nas áreas de gestão, marketing, recursos humanos e administração pública, evidenciando o caráter multidisciplinar do encontro.

Mais do que um evento académico, o congresso afirma-se como um espaço de partilha de ideias, experiências e aprendizagem entre gerações, reforçando o papel da Universidade de Santiago na promoção do conhecimento e na construção de soluções para os desafios do presente e do futuro.

O congresso prossegue esta sexta-feira, 10 de abril, no Campus de Bolanha, em Assomada, com início às 9 horas.