US MUV –  Engenhos 2025 promove regresso às raízes da cabo-verdianidade

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A Universidade de Santiago (US) promoveu, nos dias 20 e 21 de dezembro, o US MUV Engenhos 2025, uma iniciativa de extensão universitária que, sob o lema “Caminhar com a história: saúde, ambiente e cultura”, transformou a comunidade dos Engenhos num espaço de encontro entre a academia, a memória histórica e a ação comunitária, reafirmando a identidade cabo-verdiana como alicerce para a construção do futuro do país.

O evento contou com a participação de estudantes dos campus da Praia e de Bolanha, docentes e investigadores da Universidade de Santiago, bem como de professores e investigadores do programa PROLEDES, oriundos da Universidade Federal da Bahia, Universidade do Sul da Bahia e Universidade Federal do Maranhão, Brasil.

Segundo o coordenador da Extensão Universitária da US, Teles Fernandes, o US MUV voltou a afirmar-se como um espaço privilegiado de aproximação entre a universidade e as comunidades, promovendo o diálogo entre o conhecimento académico e os saberes locais.

A receção à comitiva esteve a cargo da líder comunitária Maria José Veiga, numa parceria que reforçou a ligação entre a Universidade de Santiago e a comunidade dos Engenhos.

Um dos momentos centrais da iniciativa teve lugar no Espaço Mantaba, onde, no domingo, o docente e investigador da Universidade de Santiago, Pedro Matos, juntamente com o professor Eledilson Gonçalves, este segundo filho dos Engenhos, conduziu uma conversa aberta com duas figuras de referência da comunidade: Maria José Veiga, autora da obra Fidju de Rezistênsia”, e Crisálida Correia, autora da obra literária “Bascudja Identidadi”.

O diálogo centrou-se na Revolta dos Engenhos, na resistência popular e na construção da identidade cabo-verdiana, destacando a memória histórica como instrumento de consciência cívica e transformação social.

No final, Pedro Matos sublinhou a importância simbólica e pedagógica do evento, afirmando que “foi um evento de grande relevância, que conectou as pessoas a um capítulo marcante da história de Cabo Verde, despertando orgulho e fortalecendo o sentimento de pertença”. O investigador recordou que “a Revolta dos Engenhos lembra-nos que não devemos tolerar a injustiça, sobretudo quando ela ocorre na nossa própria terra e coloca em risco o bem-estar das populações mais vulneráveis”.

Segundo o docente, “a cobrança excessiva e abusiva de impostos relacionados com o uso da terra desencadeou uma reação coletiva, em que a comunidade se uniu para defender a sua dignidade e o direito à terra como espaço de sustento e sobrevivência”, sublinhando tratar-se de “um exemplo claro de resistência popular perante práticas injustas, baseadas na exploração e na negação de direitos fundamentais”.

Dirigindo-se particularmente à juventude, Pedro Matos destacou que “a principal mensagem é que o conhecimento da nossa história e das nossas raízes nos torna mais conscientes e preparados para defender os nossos interesses e direitos”, considerando a Revolta dos Engenhos “uma história inspiradora de pessoas corajosas que resistiram às injustiças coloniais e lutaram, acima de tudo, pela legalidade e pela justiça”.

O investigador enfatizou ainda o papel da comunidade como valor central para o desenvolvimento social, alertando que “num tempo em que muitos jovens estão fortemente ligados às comunidades virtuais, torna-se ainda mais importante integrá-los nas práticas comunitárias presenciais”. Para tal, defendeu a promoção de “mais atividades coletivas que estimulem a consciência comunitária, criando espaços de diálogo, convivência, relaxamento e ligação com a nossa história e com a nossa gente”.

De acordo com Pedro Matos, “o fortalecimento dos laços comunitários contribui também para enfrentar desafios contemporâneos que afetam a juventude, como a ansiedade, a depressão e o sentimento de vazio”, reforçando valores essenciais como “a solidariedade, a identidade e o sentimento de pertença”.

A dimensão comunitária do US MUV – Engenhos 2025 foi igualmente evidenciada através de momentos de convívio intergeracional, com destaque para o almoço partilhado com pessoas idosas da comunidade.

No domínio da saúde, a professora Giceila Miranda dinamizou uma conversa dedicada à promoção da saúde da pessoa idosa, com enfoque na prevenção de quedas e na melhoria da qualidade de vida.

Com esta edição do US MUV, a Universidade de Santiago frisou mais uma vez o seu verdadeiro compromisso com uma formação integral, assente no diálogo entre universidade e comunidade, na valorização da memória histórica e na promoção de uma cidadania ativa, demonstrando, igualmente, que o regresso às raízes da cabo-verdianidade é também um caminho essencial para pensar e construir o futuro de Cabo Verde.